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Porque quem fala sobre assuntos sérios quase sempre me faz dormir ou passar raiva?

  • Foto do escritor: Silvia Vilhena
    Silvia Vilhena
  • 10 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 10 de dez. de 2025

Aviso importante: neste texto vamos falar somente sobre os métodos orais - que saem dos lábios - de aprendizagem!


Antes de começar este texto, preciso ser honesta com vocês. Eu nunca fui o que se pode considerar uma boa aluna e nunca gostei muito das aulas na escola. Pensando bem, acho que posso me considerar um caso clássico da vida escolar.


Desde pequena tive muita dificuldade com matemática, e acho que por isso casei com um engenheiro - nunca disse que não era esperta. História e língua inglesa sempre foram minhas melhores matérias, mas matemática e ciências nunca fizeram muito sentido.


Posso dizer que durante o ensino fundamental fui uma aluna mediana, com notas entre 7 e 9. Na minha casa era claro que o trabalho de tirar boas notas e orgulhar a família era da minha irmã e meus pais só pediam que eu passasse de ano, graças aos deuses! Durante nove anos, da alfabetização até a oitava série, tudo estava tranquilo, mas a vida "é uma caixinha de surpresas", - impossível não amar o icônico grupo Melhores do Mundo - e logo chegou o temido, e aguardado, ensino médio.


Na minha escola ser do ensino médio significava passar por várias mudanças. A partir do primeiro ano você podia usar calça jeans para o colégio - o que nunca fiz porque já era uma adolescente gorda e o jeans cintura baixa machucava minha barriga - ao invés da calça cinza e sem graça do uniforme. Os alunos também podiam almoçar sozinhos no Subway que tinha perto da escola, já que tinham aulas extras na parte da tarde. E claro, tinham as sonhadas excursões do ensino médio. Estas variavam de passeios na cachoeira, - morava em Belo Horizonte onde temos uma cachoeira a cada 40 minutos da cidade - a quatro dias no NR ou no Paiol Grande, sempre cercados de amigos e potenciais ficantes.


Acontece que a maior mudança pra mim aconteceu nas minhas notas. De repente me tornei a melhor aluna da turma, descobri minha vocação para os estudos e passei entre os melhores no vestibular da UFMG! Se você acreditou no que acabou de ler, muito obrigada pela confiança cega que depositou em mim. Mas acho que é meio óbvio que nada disso aconteceu.


Lembra da média de notas entre 7 e 9? Mas eu desci a ladeira rolando e sem freio! No ensino médio meu 9 virou 6/7, meu 8 virou 6 e meu 7 virou 5.7 e uma choradinha. Mas também, o que os adultos esperavam de mim? Se eu já mal sabia matemática básica quem realmente acreditou que eu aprenderia física e química algum dia da minha vida?


Para conseguir passar de ano, sempre raspando, fiz MUITA aula de reforço com ótimos professores. Mas eu sempre me deparava com o mesmo problema: eu não estava nem aí para o que eu deveria aprender!


Claro que eu queria passar de ano, e sinceramente, me livrar daquela obrigação logo. Mas desejo, curiosidade ou interesse em aprender eu não tinha nem um pouco. Agora sejamos sinceros, já que somos adultos e não tem nenhum jovem por perto podemos abrir nossos corações e falar a verdade: o jovem não tem motivo nenhum para se interessar pelo aprendizado. BUM! A polêmica foi lançada, momentos de tensão!


Antes que você desista de terminar este texto, deixa eu me explicar melhor. Pra mim existem algumas diferenças entre ter e querer. Mesmo com minhas dificuldades e indiferença aos estudos tradicionais, sempre entendi que teria que estudar e me formar no ensino médio se quisesse ir para a faculdade e encontrar meu caminho profissional - o que não deu assim muito certo, mas já falei disso no meu post anterior. No entanto eu nunca quis aprender todas aquelas coisas que a escola me ensinava e nunca consegui superar minhas dificuldades acadêmicas.


Aposto um centavo que sei o que você está pensando agora. Seria algo como: mas na vida a gente não faz só o que gosta? Se for, eu concordo 100% e ouvi meu pai me falar isso a vida inteira. Mas, me fala a verdade, não é muito mais fácil viver uma experiência prazerosa do que uma por obrigação? Você não prefere trabalhar quando faz parte de uma empresa que te motiva, ou com um superior que te incentiva e mostra como é possível crescer na sua área? Pois é, os jovens também preferem ser influenciados e guiados por quem os motiva, quem consegue transformar a obrigação em um desejo ou em uma descoberta. Por sorte, no meio de tantos professores tradicionais eu tive um que me mostrou que é possível querer aprender.


O Nelson, mais conhecido como Nelsão, foi meu professor de biologia durante todo o ensino médio e eu sinto falta das aulas dele até hoje. Quando penso sobre o que tornava o Nelson um professor tão bom, vejo que não era somente a sua empolgação com a matéria e seu bom humor. Ele tinha a capacidade de identificar o ritmo de cada aluno e não forçava o nosso interesse, apenas pedia uma chance para nos apresentar o que tinha preparado para aula. O Nelson nunca pedia silêncio ou atenção, ele não controlava a gente, ele falava "galerinha", - o que eu achava fofo, me sentia na finada Malhação - perguntava como a gente estava, - o que nenhum outro professor fazia com real interesse - ouvia o que um ou dois diziam e só então iniciava aula.


E porque falei tanto sobre o meu tempo de escola? O que o Nelsão - que deve estar com a orelha vermelha - tem a ver com as pessoas que falam sobre assuntos sérios e os sentimentos que elas me causam? Bom, acontece que pra mim, existem pouquíssimos Nelsons nesse grupo.


Mas o que eu, a aluna mediana sabe sobre aprendizado? Ahá, hora de surpreender a todos com duas reviravoltas de uma só vez! Primeiramente gostaria de informá-los que fui professora por 12 anos, por essa vocês não esperavam. E, segunda reviravolta, hoje eu amo ler, estudar e aprender sobre essa desafiadora arte de viver - claramente estou em um momento de estudos filosóficos.


E quando uso o verbo "amar" garanto que não estou exagerando. Porque somente por amor ao aprendizado que eu ainda não desisti de buscá-lo. Calma, vou me explicar mais uma vez e espero que o meu pensamento faça algum sentido.


Quando comecei minha carreira profissional levei o primeiro susto. Eu fiz inúmeros cursos, treinamentos e especializações. Assisti palestras dos mais renomados professores nacionais e internacionais. Eu estava aberta a aprender tudo que fosse possível sobre ensino, pedagogia, linguística e desenvolvimento humano. E, infelizmente, posso dizer com toda certeza que não gostei de nenhuma destas experiências! Em algumas delas cheguei a dormir, em outras comecei a jogar joguinhos no celular. Ai gente, durante o meu MBA cheguei ao ponto de parar no Starbucks do caminho - morava em São Paulo e as aulas eram em Campinas - para tomar um café superfaturado e garantir que chegaria atrasada na aula.


Será que eu me achava melhor do que todos estes professores, palestrantes e espacialistas? Muito pelo contrário! Eu sabia que eles tinham muito mais conhecimento e vivência do que eu, e aprendi muito com o conteúdo deles, mas não necessariamente enquanto eles falavam. Se algum de vocês mestres, doutores, especialistas passar por este texto, - ou se alguém, algum dia, ler este texto - me responda uma pergunta sincera: vocês passam por um curso de como falar com uma mistura de monotonia, apatia e um toque de arrogância?


Estou aqui há uns 15 minutos tentando lembrar de um especialista que tenha me motivado, ou agradado até, durante este período e realmente não me vem ninguém na cabeça. Pausa para um suspiro de tristeza e indignação.


Quantas vezes ouvi um professor praticamente humilhar um aluno ao responder sua pergunta, isso quando não cortava os alunos antes mesmo deles concluírem o pensamento. Quantos palestrantes fazem a mesma pausa estratégica ao final de uma fala que acreditam ser impactante o suficiente para causar surpresa ou admiração no público. Ah, não posso esquecer da tradicioNAL ênfase em SÍlabas de paLAvras que o especiaLISta consiDera importantes em SUA FAla. Francamente, se você precisa gritar no meu santo ouvidinho para chamar a minha atenção, a sua palestra não pode ser tão boa assim.


Mas nem tudo está perdido para quem quer aprender sem morrer de tédio ou de raiva. Hoje vivemos no auge da tecnologia, as regras foram quebradas, o acesso nunca foi tão grande, pessoas de todas as idades e estilos estão online dividindo o seu conhecimento. Com um click no Youtube você pode ouvir vencedores do prêmio nobel, escritores de best seller, historiadores renomados, filósofos que definiram o século XX e XXI, professores que são referência em sua área, sem falar nas milhares de TedTalks sobre assuntos que você nem desconfiava que eram discutidos.


E cheia de esperança lá fui eu me aventurar no vasto mundo da internet. Ouvi muitas palestras, podcasts, aulas e diálogos sobre filosofia, religião, história do ocidente, Budismo, história da bíblia, psicologia, psicanálise, linguística e metodologias de ensino. E posso dizer com convicção que dormi no meio de 70% delas. Como já dizia Blogueirinha, "tô com vergonha, vergoinha".


Devo insistir que a culpa não é só minha. A tecnologia avançou, mas a forma de falar não! Claro que existem alguns profissionais que eu gosto muito de ouvir, e destaco a Dra Ana Beatriz Barbosa do PodPeople. Muitas pessoas comentam que ela fala um pouco mais do que os convidados, mas tenho a impressão que ela está só muito empolgada para conversar sobre o assunto, e pra mim ela fala de forma natural e confortável. Infelizmente ela é uma das exceções.


Hoje mesmo eu estava ouvindo um moço jovem, deve ter seus 30 anos, com doutorado em História falando sobre a origem da Bíblia - estou em uma fase de entender como o Cristianismo ficou tão popular. Este cara tem um tom até legal, mas o vocabulário, meus deuses! Eu já acreditei que você é um acadêmico, não precisa ficar me provando em todas as sentenças.


E quanto mais eu penso sobre isso, - inclusive enquanto escrevo esse texto -

mais eu acho que isso não vai mudar tão cedo. Como as pessoas podem mudar algo que não veem como problema? Vamos pensar juntos, se a pessoa passou anos se dedicando ao seu conhecimento acadêmico, ela não vai falar de forma acadêmica? Se para virar palestrante eu sou treinado para usar técnicas vocais que chamam atenção do público, porque não usá-las? E se alguém quer fazer sucesso na internet com o seu conteúdo, porque não tentar imitar a forma de se comunicar do seu público alvo?


Hoje em dia sei que não vou deixar de buscar o aprendizado por causa disso, mas penso no tempo que perdi, nos ensinamentos que deixei passar por não gostar do estilo de comunicação da pessoa. E mais do que tudo, penso em todos os jovens que talvez não tenham a sorte de encontrar um Nelsão na sua trajetória para mostrar que é possível QUERER aprender.






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